domingo, 8 de novembro de 2009

natgeo, aqui vou eu

video

Resolvi fazer hoje um filme da nova cachorrinha que mora aqui em casa, a Sopa. De máquina na mão, lá fui pro quintal pronta a fazer um sensacional filme estilo "National Geografic", documentando o comportamento canino em ação. Céus que complicado que são essas duas coisas: ter um cachorro e fazer um filme de um filhote. Bem. Demorei um tempão para convencê-la, no início, a não comer a máquina. Depois gastei mais um tempo enorme pedindo por favor para ela parar de me morder. Mais um tempo pra ela parar de mastigar minha havaiana. Até que ela se distraiu e consegui ligar a máquina e iniciar meu filme. Natgeo, aqui vou eu, pensei. Imaginei o filme: aquele petizinho lindo correndo feliz de lá pra cá, aos saltitos, sorrindo. Um sucesso de filme, essas coisas que dono pensa de cachorro. Mas gente, não deu. Como sempre, ela passou a destruir o meu jardim em segundos, e como eu estava com a máquina na mão, não podia impedir. Eu ia ficar filmando aquilo? Não, né. Resumindo, fiz uns três filmes mínimos, desisti do documentário do comportamento canino e olha ai, nesse mini filme desastroso, a prova que eu tentei. Tentei, mas desisti. A cachorrinha já comeu, em 10 dias, 1/5 do meu jardim, todos estamos com setecentos arranhões e múltiplas de mordidas nas pernas, pés, canelas e mãos, temos uma quantidade considerável de estragos em toalhas, roupas e móveis e todo mundo acha... lindo. Acho que precisamos de uma Super Nanny Dog. Sei lá de onde vem a tolerância dos humanos com um ser tão destruidor como um pequeno cão. Um dos mistérios da natureza.

sábado, 7 de novembro de 2009

as cabeçudas



A Drake, eu a Bê achamos de novo os posteres das três meninas desconhecidas na casa do meu primo e não aguentamos: tiramos uma foto com elas. Somos 3, elas também 3, achamos que isso queria dizer alguma coisa. Nossos corpos, as cabeças delas. O que não sei, acho que vou perguntar para o oráculo. Pera. Voltei. Deu "1", ou seja "vai sozinho". "Vai sozinho?". Nossa que complicado que é interpretar oráculos. "Vai sozinho" pra mim é melhor que "sim". E dai? Sei lá. Voltando, tivemos uma enorme conversa para decidir quem seria quem. Eu acabei ficando com a única menina que não ri e não fiquei lá muito satisfeita. A do meu poster parece até que chora, é que eu tive que colocar tarja e não dá pra ver. Aceitei o fato, fui sozinha e triste. Ficamos hiper cabeçudas, mas olha que foto engraçada.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

o dado eletrônico do primo francisco



Fui outro dia na casa do meu primo e ele me mostrou um estranho objeto.
- Caramba. Que é isso, Francisco?
- É um dado eletrônico. Comprei para testar para usar no jogo que inventei.
O Francisco está desenvolvendo um "jogo", um jogo desses normais, de jogar na mesa, como o War, Leilão de Arte, Banco Imobiliário. Um jogo legal, educativo, bacana, ele já tem todo o projeto montado, mas ainda está em fase de testes.
- Precisa de dado eletrônico, seu jogo? Não pode ser um dado comum? - perguntei - Não é a mesma coisa?
- Não sei - ele disse - comprei esse dado pra testar.
Não aguentei e apertei o botão do meio. Tutututututututututú, fez o dado, que parou num número. Era legal fazer aquilo. Fiquei naquele tututututu um tempão. Foi quando tive a idéia de usar o dado eletrônico para... tirar a sorte. O Francisco se animou com a idéia.
- Que legal! Outro jogo! As pessoas adoram tirar a sorte. Poderemos ter respostas para muitas dúvidas cruciais da vida. Com esse dado-oráculo-eletrônico - ele falou, animado - poderemos definir o destino de muita gente.
- Mas Francisco, pensando bem... para o dado eletrônico tirar a sorte, cada número tem que significar alguma coisa. Olha, eu tirei 3. O que quer dizer? Nada. Dãr prá nós dois, primo.
- Hummm. Vamos fazer uma lista de resultados, então - ele sugeriu - um dos números será o "sim" e outro será o "não". Vamos escolher.
- E os outros quatro números? - perguntei.
- A gente escolhe respostas aleatórias só pra encher linguiça. Importa só na verdade o "sim" e o "não" - ele resolveu.
Hahaha. Gente, como eu gosto de uma bobeira. Colocamos a mão na massa, e a lista ficou assim:
1) vá sozinho
2) será a coisa mais frustrada da vida
3) faça uma salmonela
4) não
5) sim
6) vai dar farofa
Jogamos diversas vezes, fazendo perguntas essenciais e não essenciais para nosso destino. Resolvemos que não existiriam perguntas que não pudessem ser feitas para o dado eletrônico, que, ao contrário de outras sortes, seria totalmente liberado para qualquer pergunta, idiota ou não idiota. "Um dia vou ter um iate?", "tem chocolate no armário?", "vou publicar um livro?", "o fulano vai encontrar a sicrana amanhã?". Tudo poderia. Fiquei com a lista, ele com o dado. Desde então eu e o Francisco temos nos torpedeado muito, a toda hora. Quando tenho qualquer dúvida, mando uma mensagem pedindo para ele rodar o dado e me mandar o número. Já ele roda para as perguntas dele e me torpedeia, perguntando o resultado. Sensacional. Contamos para um monte de gente, estamos ficando famosos como adivinhos: "franka e o primo, os profetas do dado-oráculo-eletrônico". O seguinte: quem precisar de alguma resposta, pode chamar. Em dois torpedos eu e ele resolvemos.
Tutututututututú.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

franka coloca bobes



Meu cabelo é muito escorrido. Nunca tive muita opção de penteados - ou solto, ou preso. Outro dia a cabelereira me deu a idéia de colocar uns bobes. Nunca coloquei bobes na vida, não sabia como e nem onde fazer, mas na hora, de vergonha, concordei com ela e fiquei caladinha.
Fui viajar no feriado com as minhas amigas Bê, Fran e Lú. Só nós 4 numa casa de campo. Antes da viagem, tive a idéia de comprar uns bobes e pedir para elas me ensinarem a colocar.
- Que é isso, Franka?
- Uns bobes.
- Bobes? Pra que isso, Franka?
- Trouxe para vocês colocarem pra mim. Eu não sei instalar bobes no cabelo.
As três me olharam pasmas.
- Mas a gente também não sabe colocar bobs!
Ufa, ainda bem que não era só eu que não sabia. Mas, pôxa. Insisti, insisti, elas concordaram, e, no café da manhã, as três se reuniram ao redor da minha cabeça, pilotadas pela Bê, e começaram o... procedimento. Acabaram, me olharam.
- Nossa, você tá a cara da princesa Léa. Vamos tirar uma foto.
A Fran me emprestou um casaquinho esportivo dela que tinha a cor dos bobs, para combinar. Acho que tavam era tirando sarro de mim, mas tudo bem, topei tirar a foto à la Star Wars.
Clic.
O que eu não imaginava é que aquilo meio que dói na cabeça. E que meio que despenca com o tempo. E isso foi tudo no dia de voltar, quando eu ia pegar um carro na estrada com vento. Resolvi colocar um lenço pra segurar os bobes.


Entrei na fase 2 do bobes. Aquela hora que você não quer que ninguém veja que você está de bobes. Aliás, bobes é um negócio pra mulher que não precisa sair de casa, porque não tem nada mais estranho , disforme e demorado do que colocar bobes. Em tempos de internet, como ninguém inventou até hoje um bobe-eletrônico?
- Nossa, tá super estranho o formato da sua cabeça, um sacão atrás... - elas comentaram, rindo.
Continuamos a viagem, até que uma hora eu tive um piti. Não aguentava mais aqueles bobes me pinicando, incomodando, não me deixando dormir. Fazia horas que estava com aquilo. Resolvi tirar, pedi ajuda para a Bê, morrendo de medo do cabelo estar totalmente embaralhado e de eu ter que cortar semi careca. Mas ela foi hábil, tirou rapidamente, ajeitou. A Bê é uma grande cabelereira.


Olha como ficou. Hummm, digamos que semi-encaracolado. Elas acharam que eu rejuvenesci, sei lá. Falaram que eu parecia estar num anúncio de shampoo. Não tinha espelho, tiramos fotos, cada uma mais ridícula que a outra.
- Franka, o Zé não vai a-cre-di-tar quando você chegar em casa - elas comentaram, animadas - está o máximo, não é porque foi a gente que fez, está legal mesmo.
Cheguei, entrei em casa correndo, mostrei pro Zé. Perguntei "que-tal?".
- Que tal o que?
- O meu cabelo, Zé.
- Tá todo descabelado. Tem que pentear.
Olhei no espelho. Tinha caído tudo, nenhum cacho. Verdade. Foram 5 horas de bobes que duraram meia hora de cachos. Ô coisa. Tristeza. Mas não vou desistir. Da próxima vez, vou usar lakê. E postar aqui, claro.

Aliás, um blogueiro amigo me mandou o seguinte link do Estadão: "Em vez de chapinha, verão pede laquê e cabelo armado". Uau, tou mega na moda... E na reportagem, olhem o que está escrito: "A dica é fazer uma escova em casa e enrolar o cabelo com rolos grandes." Ou seja, bobes!

domingo, 21 de dezembro de 2008

jingoubéu, jingoubéu, jingoubéu


Gente, pra que essa quantidade de festa de natal? Comentávamos outro dia essa mania, que virou moda agora, de todo mundo ficar mudando o dia da festa de natal. Natal, pra mim, deveria ser uma festa se comemora ou na virada do dia 24 pra o dia 25, ou no próprio dia 25, que é o dia certo do natal: 25 de dezembro. Mas inventaram que, para agradar todo mundo de todas as famílias de uma casa, pode-se fazer a festa de natal no dia que você bem entender. Tem festa de natal no dia 17, 18, 19, 20. Olha filha, o almoço da família vai ser no dia 23 porque tua irmã vai na casa da cunhada. Olha Lúcia, a comemoração da família vai ser antes, porque a sogra da Fulana não pode no dia 25 e seu cunhado tem a festa da família dele no dia 24 à noite. Assim a festa de natal explodiu completamente, não tem mais dia, e a gente é obrigado a participar de, no mínimo, uns cinco a seis natais diferentes. Mil vezes o a festa de ano novo, que é uma festa fiel, sempre cai no mesmo dia, na mesma hora, esteja cada um onde estiver. Imagina comemorar o ano novo dia 29, se tem cabimento. Além disso, pra a festa do ano novo você não é obrigado a gastar nada, nem tem obrigação de dar lembrancinha inútil pra uma montanha de parente. Pena que não tem lei pra isso no Brasil. E viva o ano novo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

as fotos do meu telefone








Volta e meia eu tiro umas fotos com meu telefone. Sei que as fotos são para fazer posts, mas geralmente eu volto a olhá-las e esqueço sobre o que eu ia falar. Gagazice total. Na hora me parecem assuntos interessantíssimos, uma pena eu esquecer. Posto aqui pra ver se alguém me dá uma luz. Sobre o que eu queria falar com essas fotos?

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

antes e depois

Antes, lago.
.
Depois, piscina.

sábado, 13 de dezembro de 2008

grandão, pequeniniiiinho


Coisa mais engraçada. A Nana fez aniversário e ontem teve uma festa aqui em casa. Uma festa enorme. Um monte de adolescentes, eles que organizaram tudo. Eu e o Zé caimos fora e fomos jantar (ai que vontade de ficar). Antes de sair eu olhei o "som" que eles arrumaram: duas caixas imensas, enormes, gigantescas, ligada num ipodinho mínimo, ínfimo. Elas grandonas, ele pequeniniiiinho. Que maluco que é isso pra quem é do tempo da vitrolinha.
Tou meio amalucada esses dias pré-natal. Inventei uma novidade, em breve anuncio.

domingo, 7 de dezembro de 2008

a vingancinha


O telefone da Nana, minha filha, quebrou. Era novinho, da Nokia, menos de três meses de uso, parecia legal mas ficou sem imagem e precisava ser trocado. Ou pior e mais trabalhoso, consertado. Ficamos adiando o dia de ir com ela na loja pra brigar com a Claro ou com quem quer que seja, até que o Zé resolveu enfrentar.
Não deu certo, e depois de horas de espera o Zé desisitiu e resolveu comprar um telefone baratinho pra ela e trocar o chip - até termos saco pra levar o aparelho quebrado numa assistência técnica e brigar lá.
- Mas a gente se vingou, Lú - ele me explica - graças ao João.
- O que vocês fizeram?
- Olha, foi idéia do João. Como eles estavam demorando muito pra atender a gente, ele fez o seguinte. Pegou todos os telefones do mostruário da loja, um a um, e, fingindo que estava olhando e analisando, tirava fotos dele mesmo e colocava nos fundos de tela. Ele fez isso em todos os telefones da loja, Lú. Deu pra fazer em todos, de tanto que demorou. Ele tirava as fotos de baixo, com uma cara super séria. E agora todos os telefones da loja da Claro do Shopping Villa Lobos tem a cara do João de fundo de tela. Todos. Tudo bem que a Claro é chata e que aquela loja é pentelha, mas ele vão ter o maior trabalho para desfazer a brincadeira do João.

sábado, 6 de dezembro de 2008

franka pinta o cabelo


Fui pintar o cabelo hoje. O processo é longo, demorado e chato. Morro de preguiça de pintar o cabelo, mas ver a minha imagem com o tom pálido dos fios brancos bem no meio do couro cabeludo, ainda mais quando se tem cabelos lisos, é bem deprimente. Não ando numa fase (essas fases existem) de estar "nem ai" e desencanar da aparência, portanto me precavi e marquei pra hoje, sábado. Caos maior do que cabelereiro no sábado não há. O certo é marcar durante a semana, num horário de aposentada, mas é impossível, claro. Fui, me apresentei, peguei a fichinha, esperei a moça me chamar. Depois de sentar na cadeira e me olhar no espelho, vem o rapaz, assistente dela e passa um gel na minha testa, ao redor do couro cabeludo, desde a testa até o pescoço. Ninguém explica nada, nunca explicou, mas acho que é pra a tinta do cabelo não entrar dentro da pele. Isso me assusta muito, imagine tingir a testa também? Depois surge a moça com um pote com uma meleca meio beje, que é passada nas raizes com um pincel largo, em camadas, primeiro em cima, depois descendo. Ele aplicam separando o cabelo com um pente, como se sua cabeça fosse uma plantação. Ai começa a pior parte: você tem que ficar com aquela meleca na cabeça, parecendo uma bruxa maluca de cabelos em pé por meia hora sem fazer nada. Eu sempre olho ao redor com desespero, mas parece que sou a única mulher que acha ruim. Todas as outras sorriem, conversam e não se entendiam. Olho no espelho e vejo que a meleca beje muda de cor, escurece feito uma massa de chocolate. Ganho uma revista, quando olho é uma Trip. A revista tem boas matérias, mas também um monte de mulher semi pelada em poses sexis, e concluo que como o lugar está lotado todas as revistas Caras e Contigos estão ocupadas, só me restou a revista dos homens. A cabeça coça, mas não se pode coçar porque a tinta mancha os dedos, começo a ficar aflita. Tento achar o rapazinho assistente para pedir um café, mas não me lembro mais quem ele era, todos são idênticos com cabelos espetados com alguns fios brancos. O tempo demora a passar, e eu começo a achar que me esqueceram ali. Sempre tenho esse pesadelo no cabelereiro - que vou ser esquecida com a pasta no cabelo e que aquilo é forte demais, que não pode ficar tanto tempo - e imagino que quando lembrarem de mim será tarde demais. O Jaques e a Janine vão me pagar uma mega indenização e mais um a mais pra eu ficar calada, mas eu ainda vou ter raiva deles e não vou me sentir vingada porque estou careca. Olho no relógio, passaram apenas quinze minutos e já li tudo que podia ler na Trip. Resolvo telefonar, mas lembro que a meleca suja todo celular e a mão, péssima idéia. Já no auge do desespero, o rapaz surge e avisa que vai passar a meleca no cabelo todo. Coloca luvas e me empastela toda. Avisa que vou ficar mais um pouco ali, esqueço de pedir outra revista e resolvo ler a Trip de novo. Mais coçeira, tento esquecer, barulho de secador, barulho de conversa, uma moça varre o chão. Sei que poderia passear, andar, dar uma volta anti-tédio durante esse tempo, mas a visão que tenho de mim mesma no espelho me afunda na cadeira como se tivesse sido pregada com pregos: estou simplesmente horrenda. Depois de uma eternidade, o moço surge de novo e avisa que vamos lavar. Tem gente que acha bom lavar, diz que é relaxante, mas eu devo ter algum problema no pescoço porque aquela posição e aquela pá-bacia de colocar a cabeça são horríveis para mim. Saio toda torta, feito árabe, volto pra cadeira e me esquecem de novo ali um tempo. A cabelereira surge toda sorridente, tira a toalha, avalia a cor, fica satisfeita e passa a cortar as pontas. Penteia, corta, mede, seca com secador, escova, arruma e coloca um espelho pra eu ver atrás. Eu sempre elogio, ela fica muito feliz. Saio esvoaçante e pintada. Olho no relógio: duas horas e dez minutos. Missão cumprida, agora só volto três meses depois.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Déo, Ringo, gato, sangue, cocô


Minha irmã Ângela estava esperando um telefonema pra um emprego novo. O dia todo atenta ao telefone, aquelas coisas. Tinha ensaiado um monte de frases, argumentos, citações, decorado frases, dependendo do que a pessoa falasse. O telefone toca, ela corre a atender.
- Alou.
Era a moça do emprego. Opa. Hora de ouvir o que ela tem a dizer e iniciar o teatro todo. Ela se apruma na cadeira e olha para a frente. Quando vai começar a falar, entra um passarinho endoidecido na sala. Ai. Um passarinho, coitadinho. Minha irmã adora bichos. Tem cachorro, gatos, tartarugas, tudo que for animal e estiver precisando de abrigo ela adota.
- Alou, oi - e ela olha o passarinho, aflitíssima - alou, ai, um probleminha, péra.
A empregada podia ajudar, ela pensa. A empregada da Ângela se chama Déo. Segundo ela, se a gente chama a Déo um monte de vezes parece que toca um sino: Déo, Déo, Déo.
- Déééo. Déo?
O passarinho começa a voar de lá pra cá, desesperado. Ela não sabe o que fazer. Resolve pegar o bicho, mesmo segurando o telefone.
- Déo? Déo, Déo, vem rápido! Déo, Déo, Déo, ai meu Deus.
Nisso entra o Ringo, o cachorro, que ouviu a gritaria. Olha o passarinho e quer matar, comer, pegar, estraçalhar aquele intruso. Fica mais maluco que o passarinho, e a Ângela começa a gritar mais ainda.
- Déo, Déo, Déo, não, pára Ringo, Ringo, pára Ringo!
Se não bastasse isso, surge o gato, que se chama gato mesmo. O gato também resolve matar, comer, pegar, estraçalhar o pobre do passarinho. Céus.
- Ringo, não! Déo, Déo, Déo, cadê você, Ringo pára, ai, o gato, o gato também não! Pára gato, Déo, Déo, Déo, socorro, Ringo pára, Ringo, sai gato!
Ela consegue pegar o bichinho, em pânico, mas o coitadinho quase escapa da mão dela porque o Ringo avança e arranha um pouco o pobrezinho no meio da luta.
- Sangue! Ringo, Ringo pára, gato, pára, ai sangue, sangue tadinho, Déo, Déo, Déo me ajuda, Ringo, pára, sangue não, ai, Déo!
Segura o passarinho com força junto do corpo dela e sai correndo para colocar lá fora, seguida pelo Ringo, pelo gato e pela Déo, que apareceu enfim, quando vê que o passarinho fez cocô.
- Cocôôô...! Cocôôô...!
Sai correndo e gritando, a blusa, a mão dela toda suja.
- Ai, cocô não! Déo, ajuda, Déo, Ringo, pára, gato, pára, ai, cocô, ãããeeee, ãããeee, sangue, sangue, cocô, cocô!
E ela solta o passarinho, que mesmo machucado, sai voando. A Ângela, a Déo, o Ringo e o gato olham o passarinho salvo lá longe e depois de um pequeno silêncio ela se lembra que ainda está... com o telefone na mão.
- Alou?
- Ângela? Tudo bem por ai?
Trabalho é trabalho, ela pensa, retomando a conversa.
- Tudo ótimo, só tive um probleminha de nada aqui. Vamos lá.
E passou a falar tudo que tinha decorado.
.
- Lúcia, pensa, você contraria alguém que, sem nem te falar oi no telefone berra Déo, Déo, Déo, Ringo, Ringo, Ringo, gato, gato, gato, sangue, sangue, sangue, ãããeee, ãããeee, ãããeee, cocô, cocô, cocô!, e que depois não explica nada? Pois bem. Hahaha. Eles me contrataram mesmo assim, acredite.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

a vida é um banco imobiliário


- Pois é o que eu sempre digo, gente. A vida é como o Banco Imobiliário, tem a sorte e o revés...
- Hã?
- Hã?
- Hã? - perguntaram os meninos pra o Zé no jantar.
Ele olhou pra os três e para mim, seríssimo.
- Eu queria completar essa conversa assim, gente. Estamos aqui falando de coisas que dão certo, que dão errado, e eu pensei isso, que a vida é assim, é como o jogo do Banco Imobiliário. Tem dias que a gente tira a sorte, tem dia que a gente tira o revés, entendem?
- Ixi, lá vem o papai.
- Nossa, que teoria profunda.
Eu lembrei do jogo. Adorava aquilo.
- Uau, Zé, Banco Imobiliário... Quando eu era pequena, o bairro que eu morava era super barato de comprar. A Rua Augusta era uma pechincha, e eu morava bem ali do lado, na Haddock Lobo. Só a Nossa Senhora de Copacabana era mais barato que a Rua Augusta, que eu me lembre. Tinha a maior inveja dos amigos que moravam no Morumbi, eu me achava a maior pobre e não queria nem comprar o meu bairro quando caia nele. Que jogo mais estranho pra uma criança, pensando bem. Segregacionista.
- E você pai?
- O Brooklin era mais caro que a rua Augusta, mas não sei se era mais caro que o Jardim Paulista, por exemplo - eu lembrei.
- Só não era mais caro que o Morumbi - exibiu o Zé.
- Como que é mesmo sua teoria, pai?
Ele tentou explicar mais uma vez.
- Eu falo só das cartas do jogo, gente, esquece o resto, tinha a sorte e o revézes e...
- Não é revézes pai, é revés. Revézes parece fezes, olha o papai falando errado.
- Ele tá tirando sarro, João - falou a Nana - ele vive falando palavra errada principalmente se combina com bobeira e escatologia.
- Gente, isso não interessa, eu estou falando que...
- "A vida é um banco imobiliário...". Já sabemos, você já falou isso - disse o João.
- E como é na vida o lance de avançar casas, pai? - riu a Nana.
- E pagar imposto, pai?
- E comprar empresa, pai?
- A gente na vida tem que tomar cuidado pra não ir pra hotel no Morumbi, né pai?
O Zé suspirou, ainda tentando completar a teoria.
- Pára de fazer gracinha, gente, o que eu digo é que na vida as...
Os três começaram a rir.
- Essa é boa, vai ficar famosa na família - riu o Chico - E pai, é sempre bom ter uma saída livre pra a prisão né?
Filhos grandes.
Socorro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

o fax do seu consul


Parei de trabalhar em casa, mas ainda tenho o meu escritório aqui. Tem minha mesa, o meu micro (velho), telefone, impressora, fax, scanner, tudo meio às moscas. O telefone nunca mais toca, uso só de vez em quando. Mas na semana passada, um dia meio a noite, o negócio começou a chamar sem parar. Tocava, caia no fax, tocava caia no fax, me deu preguiça de ver quem era. Ora, se fosse importante a pessoa me ligaria no celular. Ou no telefone de casa. Desencanei.
No dia seguinte, logo de manhã, o telefone do escritório voltou a apitar. Trimmm, pééé (pééé é o barulhinho do fax). Trimmm, pééé. Trimmm, pééé. Sentei aqui pra fazer um post, intrigada. Foi quando vi que tinha realmente um fax chegando.
Não era pra mim. Era alguém ligando e passando um fax para um tal de senhor Carlos. E nossa, parece que a pessoa queria muito falar com esse senhor Carlos. No texto do fax o homem contava que tentou ligar para o celular dele e nada, que tentou mandar um email que voltou, e que agora tentava ligar para o telefone fixo dele, mas como estava no fax desde o dia anterior, ele resolveu mandar o fax. Ele queria saber sobre um empreendimento, uma coisa que chamava Bosque Platinum ou coisa que o valha, queria uma resposta urgente. Parecia importante e ele perguntava como fazia para falar com esse Carlos. E no fim ele assinou: "sr. Consul".
Consul? Nossa, o homem tinha nome de geladeira? Freezer? Consul? Nunca vi ninguém com esse nome. Engraçado. E se ele fosse Consul, ele não assinaria Consul, e sim Consul Alguma Coisa. Ele tinha mesmo o nome do nome da geladeira. Eu envolvida lendo o fax e o telefone toca de novo. Era ele, só podia ser. Desliguei o fax e antendi.
- Alô.
- Bom dia - a voz dele era de alívio - Bom dia, por favor o senhor Carlos? Aqui é Consul.
Hahaha. O próprio.
- Oi seu Consul. Estou aqui com seu fax.
- Ah, acabei de passar mesmo, não conseguia que atendessem ai. Por favor, a senhora poderia me chamar o sr. Carlos?
- Pois é seu Consul, o problema é que não tem Carlos nenhum aqui. Tem só eu, e eu sou Lúcia. O senhor ligou engano e passou um fax-engano também. Aliás, seu Consul, eu nem atendo esse telefone, eu só atendi para dizer para o senhor que o sr. Carlos não vai receber esse fax.
- O sr. Carlos não mora ai? Como assim? Mas o número não é...
- É, seu Consul, o número tá certo, mas não tem Carlos nenhum aqui.
- Mas... mas que coisa... como...?
- O senhor não conseguiu falar com ele no celular e nem no e-mail, né? Eu li o fax que o senhor escreveu, o senhor me perdoa, mas chegou aqui na minha casa. Então eu sei.
- É, não consegui... - ele estava desconsolado - Puxa vida, viu, dona Lúcia.
- Descupa, seu Consul, mas eu não posso ajudar o senhor.
- Escuta, não tem mesmo nenhum Carlos ai?
- Não.
O homem desabafou de repente.
- Sabe senhora, acho que esse Carlos me enganou. Celular errado, e-mail errado e telefone errado, tudo falso? Ah, que coisa... O que a senhora acha?
- Olha seu Consul, parece que sim.
- Bom. Obrigada, dona Lúcia, e até logo.
Seu Consul era super educado. E eu consegui (juro que foi difícil, mas difícil mesmo) não tirar sarro do nome dele e dizer que ele entrou numa fria.

franka atrás do joelho


- Mãe, conta pra meu amigo que você tem um blog.
- Tem, tia?
- Tenho. O meu blog se chama "frankamente", peraí que vou te dar um cartão - falei pra o menino.
- Legal.
- Ela escreve sobre umas coisas do "cotidiano", sabe? E ela tem um apelido que ela mesma se deu. Ela é a "Franka". "Franka" do "frankamente..." - ele fez um gesto com a mão, balançando o polegar e o indicador - entendeu?
- Chico, pára de tirar sarro de mim. Não pode tirar sarro de mãe.
- Não tou tirando sarro, mãe - ele respondeu, obviamente ainda tirando o maior sarro - Sabe, outro dia ela escreveu um post sobre a minha calça "samuel".Você sabe o que é calça "samuel"?
O amigo olhou pra o Chico e arriscou.
- Aquelas calças que tem o bolso atrás do joelho?
Hahaha. Adorei essa explicação.
- Isso - respondi para o menino - Enquanto vocês fazem política estudantil lá na USP, enquanto vocês vão em plenárias e entram em chapas para o DCE, eu escrevo exatamente sobre isso no meu blog. Sobre calças com bolso atrás do joelho. Passo horas discutindo pra que servem aqueles bolsos atrás do joelho.
Se é pra tirar sarro do meu blog, tiro eu mesma.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

tratar mal?



Uma das obras que eu tomo conto (um dos meus trabalhos é administrar obras) é num prédio que tem muito segurança. Gente, não tem nem como explicar aquilo. Eu juro que é segurança demais, eu não me conformo com a quantidade. Tem segurança pra todos os lugares que você olha. Só pra ter idéia, da hora que eu estaciono o carro até a hora que eu entro na obra, eu cumprimento 9 caras. Bom dia nove vezes só pra os seguranças. Tem os da rua, o do quarda chuvinha, o da guarita, o da entrada, o do elevador. É. Em cada hall tem um segurança. Aqueles cubiculinhos de serviço, neles mesmo, tem segurança.
Não vou discutir o porque dessa maluquice, mas ao contrário de me sentir segura, eu me sinto super insegura naquele lugar. Agora, o interessante é que, desde que começei a ir nessa obra, notei que eles não falam comigo. Na verdade, encanei que eles me tratam até meio mal. Ora, eu vou ao menos duas vezes por semana e vejo todos eles toda vez. Já conheço as caras e tal, mas notei uma coisa: segurança é treinado pra não ser "chapa" de ninguém. Segurança não pode ser seu amigo. Ser amigo distrai. Isso é irritante e é o fim da picada, um cara ser treinado pra te tratar mal. Caramba, imagina você ter um trabalho onde não pode rir? E desde então resolvi que ia insistir: a cada vez que eles me tratam mal, eu trato os caras melhor ainda. Isso tem deixado os seguranças confusos pra burro. Eles não sabem se podem rir, se podem responder minhas perguntas. E na sexta feira, ahá! Um deles até deu até uma risada. Foi uma risada muito sutil, muito discreta, mas consegui. Eu sai dali satisfeita. Só espero que não esteja fazendo os moços perderem o emprego.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

o fim da campainha


Eu e a Bê resolvemos ficar conversando na frente da minha casa. Eu tenho uma varandinha que fica na frente da garagem. Era de noite, e o carro, as plantas e o portão atrapalham para ver a rua, mas notamos que um carro estacionou na frente de casa.
- Chegou alguém, Franka.
- É, chegou um carro, Bê.
- Deve ser alguém que veio aqui na sua casa. O seu filho Chico não estava esperando o amigo dele?
- Se for o amigo do Chico de carro vamos ouvir uma porta de carro fechar "blam" e a campainha vai tocar "dimdom". Vamos esperar.
- Não, Franka, a sua campainha não vai tocar.
- Se for o amigo do Chico vai.
- Não vai, Franka, porque hoje em dia as campainhas não tocam mais. As pessoas chegam na casa das outras e simplesmente telefonam. Ninguém mais toca campainha hoje em dia.
- Nossa, Bê, eu não tinha reparado.
Ficamos em silêncio. O carro lá fora parado, com o farol aceso.
- Viu? A campainha não tocou, Franka.
- É. Não tocou mesmo, Bê.
Nisso a porta da minha casa se abre, de dentro pra fora, e o meu filho Chico aparece.
- Tchau mãe, estou saindo. Meu amigo Kiko chegou pra me dar carona.
- Ah. Tchau filho. Juízo.
Olhei pra Bê.
- Franka, a gente mesmo, eu, você, a gente não usa mais campainha. Por exemplo, quando você vai buscar os filhos na casa dos amigos você toca campainha?
- É, Bê, tem razão. Eu não toco. Eu ligo pra o filho e falo "oi cheguei, saia", ou "oi cheguei, desça".
- O celular acabou com a vida da campainha, Franka.
- É verdade, Bê. Estamos vivenciando o fim da campainha. Pobre dimdom. Um som do passado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

uma tal de calça samuel


- Mãe, já que a gente tá aqui no shopping, podemos comprar uma calça? - falou um dos meus filhos.
Há tempos que não gasto dinheiro com roupa pra eles. Na verdade, acho que as pessoas do mundo hoje tem roupas demais. Um dia achei que eu tinha roupa demais, que o Zé tinha roupa demais, que os meus filhos tinham roupas demais. Todos tínhamos roupas demais e depois ficávamos reclamando que faltava armário aqui em casa. Então há uns anos eu... eu... bem, eu meio que parei de comprar roupa.
- Gente, vamos pensar. Quando as que vocês tem estragarem, a gente compra mais. Vamos somente substituir - eu declarei - A calça rasgou, jogamos fora. O sapato está sem sola e o sapateiro disse que não dá mais pra arrumar? Ai compramos outro. A blusa virou um trapo? Só nesses casos. Não é uma questão de pão-durismo, isso é ser razoável e inteligente. Não adianta nada separar lixo, reciclar tudo e acumular camiseta. Não tem lógica isso. É que, pensem, roupa não apodrece, não embolora em uma semana assim como comida. Se roupa fosse como carne moída, que não dura muito, ninguém tinha tanta. A gente tem roupa que não usa quase nunca. Um exagero.
Acertei os detalhes com todos eles. A Luciana, que é menina, tinha que ter um pouco mais de roupas e acessórios, afinal, é menina. O João, que treina basquete, tinha que ter as roupas normais e os uniformes, tudo em boa quantidade. O Chico, que tá na faculdade de direito, tinha que ter ao menos uma roupa formal para as ocasiões importantes. E o número básico de roupas de cada um tinha que estar de acordo com o processo de lavagem/ secagem e passagem da Maria.
- Então, mãe, e a minha calça? - insistiu um dos meninos - As minhas calças já estão todas meio furadas e rasgadas. Posso comprar outra?
Entramos na loja do vendedor que sempre me cumprimenta com beijo-beijo. Oi, beijo-beijo-lúcia, oi, beijo-beijo-vendedor. Experimenta aqui, experimenta ali, quando meu filho vira pra o vendedor, com a maior cara de pau, e lasca essa:
- Ô moço. Você tem calça Samuel?
Meus filhos são assim. Eles fazem uma gracinha entre eles, riem, riem, e depois tentam com os outros. Os outros não entenderem é a melhor parte. Eles adoram trocar o nome das coisas, sutilmente, e fingir que não sabem o nome certo. Como se fossem uns caipiras-desavisados. Mas eles sabem muuuito bem. E agora existe um modelo de calça que se chama calça Saruel. É um modelo que tem um cavalo lááá em baixo. Parece um saco, mas dizem que é super confortável.
- Calça o quê? - perguntou sem graça o vendedor que beija-beija.
- Calça Samuel, moço.
- Samuel? - disse o moço, confuso.
O outro filho interveio.
- É. Calça Daniel, moço.
- Daniel?
Eu entendi a piadinha na hora, mas resolvi ver até onde aquilo ia.
- Calça Rafael, não tem calça Rafael aqui? Ou é calça Manuel que chama, moço? Sério que não tem? Aquelas, que tá na moda agora?
- Chama Samuel mesmo - insistiu o outro filho - Cal- ça - sa - mu - el, ô moço.
O vendedor deu um risada sem graça. Coitado. O menino pegou uma calça do cabideiro.
- Ah, tem sim. Olhaqui uma calça Samuel!
- Ah! Isso é uma calça Saruel! - o beijoqueiro explicou, aliviado.
- Isso - o meu filho disse, era essa que eu estava pedindo mesmo, uma calça Samuel. Vou experimentar.
- É Saruel que fala... errr... Sa-ru-el, Saruel! - tentou o vendedor, atrapalhado, achando que não tinha boa dicção.
Depois de um tempo, o Zé, que estava em outro lugar, entrou na loja pra encontrar com a gente.
- E ai, já compraram a calça? Tudo resolvido?
- Pai, vou comprar uma calça Samuel - o menino disse, rindo.
- Ual, filho. Que chique! Uma legítima Samuel? Hummm, que moderno...
É. O Zé adora essas piadas também. O vendedor me olhou e coçou a cabeça.
- É... é uma brincadeira de vocês, né? Uma pegadinha, né?
- Mais ou menos... - confessei - bem, e quanto custa essa... legítima Samuel?
- Perai que vou ver... a Samuel custa... custa...
Hahaha. Demorou, mas o cara entrou na piada. E duvido que ele esqueça do novo nome da calça.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

"assenhõas sagevô cin hocus"


Lá vou eu implicar com a ponte aérea de novo. Além dos absurdos dos lanches mequetrefes (happy-hour-tam?), eu juro, não tou velha nem surda mas o sistema de som do aeroporto do Rio é totalmente incompreensível. Colocassem uma senhora gritando que a coisa seria mais eficiente. Tem senhora que grita super bem, que tem voz super nítida. Pois ontem, na volta, não tinha portão de embarque. Tinha chovido pra caramba e os vôos mudaram todos. O saguão de espera da ponte é dentro de um tubo de vidro com teto de vidro, e o moço do chequim mandou aguardar a chamada do portão lá em cima. As televisões cheias de anúncio de celular e mais nada. "Assenhõas sagevôcin oitod atinov ortão zur".
- Hã? Que ela falou? - perguntou a moça do meu lado.
- E eu sei lá?
- Não ouvi - disse um senhor japonês - vocês entenderam?
- Não.
E todo mundo corria pra um portão onde aparecia qualquer pessoa de uniforme. Putis ginástica coletiva. Ficamos nessa lenga por horas. "Pagel desportogol umqualoito enta ã o borq". Que língua era aquela? Português eu falo, eu juro. Surda (ainda) não estou. Imagina um alemão ali. Será que ninguém repara que não dá pra entender nada? Consegui voltar só as sete. Na dúvida se aquele avião vinha pra São Paulo mesmo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

no cemitério com a minha mãe - II


- Vamos embora desse cemitério, mãe?
- Vamos, pelo amor de Deus, Lúcia. Nossa. Mas antes olha aquele túmulo lá, Lúcia minha fiiilha... É muito pior que o da mulher morta com o marido pelado puxando... Olha que terrenão. Parece a mansão no Morumbi aqui do cemitério.
- Se fosse uma mansão no Morumbi tinha muro, cerca elétrica e câmera de monitoramento, mãe.
Ela ficou um tempo analisando, pensando.
- Olha filha. Túmulo deveria ter ao menos alarme, olha a quantidade de porta de cobre de túmulo que roubaram daqui. Viu como roubam as portas? Viu? Roubam pra vender, ah, esse Serra, viu? Escreve para ele, filha. Escreve, manda email, você é boa nisso. Ele devia colocar alarme aqui nos túmulos.
- Alarme?
- Sei lá. Acho que alarme não adianta nada, aqui só tem morto... Talvez arame farpado...
- Mãe, o alarme ia chamar a central de monitoramento, a empresa de segurança, onde espero que todos estejam vivos.
- Esse túmulo é bem mais exagerado do que o do homem de bunda grande. Olha que horror. É dum homem que morreu e olha, foi a esposa fez esse túmulo exagerado pra ele! Ai como mulher é boba. Ai não me conformo. O marido morre e ela gasta essa fortuna com o morto, devia era pensar no futuro dela, que burra, meu Deus...
Fui ler a lápide. Era pra um tal de Gianini, Giovanni, sei lá, Guiseppe? "Guiseppe meu...", falava a inscrição. E embaixo tinha assinado o nome de uma mulher.
- Olha, desta vez é ela que chora e se arrasta, mãe.
- É. Hahaha. Ela quis imitar o outro. Quis mostrar que amava mais. Bah. Duvido que o Guiseppe fosse lindo assim como essa estátua, com esse corpão, com esses cabelões. Nossa. E quem são esses outros pelados que arrastam o Guiseppe morto?
- Devem ser os anjos da morte, mãe.
- Que anjo da morte o quê... Ai que mulher burra. Isso deve ter custado uma fortuna, eu me pergunto pra quê, gente, pra quê isso? Quanto tempo depois que ela morreu, filha?
- Deixa eu ver, mãe. Quase vinte anos depois, mãe.
- Vinte anos depois e pobre, tenho certeza. Gastar dinheiro com morto. Que idéia. Devia era guardar o dinheiro pra casar de novo. Guiseppe. Bah.